Resenha | O Navio Arcano – Robin Hobb

“Afaste a ansiedade. Quando se preocupa com o que poderia ser, você deixa
de desfrutar o agora”.

Cada vez mais me pergunto porque demorei tanto para me encontrar com Robin Hobb. Este é o meu primeiro contato com a autora e admito que foi uma espécie de amor à primeira história. Minha falta de experiência com a escrita dela fez toda a diferença no início da leitura, porque sem saber o que esperar, não fui com muita sede ao pote. E acho que isso a princípio foi fundamental, já que a narrativa de Hobb é lenta, um pouco densa e com capítulos longos, porque ela constrói os ambientes de forma precisa e tece os acontecimentos sem pressa, com muita destreza. Para mim, essa forma de leitura foi extremamente válida, porque com muita facilidade me vi imersa dentro da história, vivenciando cada ambiente e acompanhando com muito interesse o desenvolvimento dos personagens.

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Um dos fatores que mais despertou a minha curiosidade com relação a obra, foi a temática envolvendo piratas, navios e serpentes do mar, já que não é um assunto tão abordado em livros de fantasia. Entretanto, o elemento mais interessante e inovador da história circunda os Navios-Vivos, embarcações raras feitas a partir de madeira-arcana, uma madeira capaz de adquirir vida própria.

Para entender melhor como tudo isso funciona, a princípio acompanhamos o despertar de Vivácia, com todos os mistérios e rituais que envolvem o nascimento de um Navio-Vivo. Essas embarcações, extremamente raras e caras, possibilitam às suas famílias viagens a lugares distintos que só elas são capazes de visitar, e também uma navegação com muito mais qualidade do que um navio feito de madeira comum poderia fazer.

“Vivácia é minha, assim como chamo minha irmã de minha. É minha família”.

Uma das coisas que mais aprecio dentro de uma história é a criação e o desenvolvimento de personagens, e felizmente, este é um ponto alto da história. Para quem gosta, saiba que O Navio Arcano apresenta muitos pontos de vista de personagens diversos. Você começa a acompanhar a inserção de cada personagem, cada um com seu arco e motivação e aos poucos aprecia como os caminhos de ambos começam a se cruzar. Os personagens são bem definidos, com suas complexidades e características, o que os tornam muito reais. A relação que eles têm um com outro também foram muito bem trabalhadas – desde as relações complicadas e dramas de família, até o relacionamento abusivo e impróprio entre marido e mulher.

“Só minha dor é mais silenciosa do que minha raiva”.

De longe, as interações entre os humanos e os navios-vivos foram as minhas partes favoritas do livro. Um relacionamento que transmite sentimentos diferente, curioso, intenso e ao mesmo tempo difíceis de compreender.

Althea, uma das personagens centrais da trama, é filha de Ronica e Ephron Vestrit – um velho mercador que é o atual capitão do Navio-Vivo Vivácia. Ela, sobre todos os outros, foi a personagem na qual mais me preocupei e torci durante a história. Ela resume bastante como os personagens são bem caracterizados dentro da trama – ela acerta, erra, tem os seus momentos de atitudes equivocadas e sofre as consequências por isso.

Outro personagem que achei muito interessante é Kennit, um pirata que possui ambições incomuns. Ele é o tipo de personagem cinza, que pende mais para o lado vilão, mas com uma complexidade fascinante. Ele transmitiu a mim sentimentos conflitantes, sem saber se eu torcia ou não por suas conquistas. Mas sem sombras de dúvida, os seus capítulos foram os mais interessantes de acompanhar.

Por outro lado, fazia um bom tempo que personagens não me tiravam tanto do sério quanto alguns dessa história. Eu os odiei intensamente e planejei vários tipos de morte para eles (de verdade).

Sobre a construção de mundo tem bastante profundidade, algo que (também) me fascinou. Com alguns vislumbres do passado, vemos que o mundo está em total decadência, com desigualdade entre homem e mulher, a legalização da escravidão e o choque entre as culturas do passado e presente. Grande parte desses conflitos políticos se dá por parte da ineficiência do principal governante da região, e nós acompanhamos como isso está afetando os menos favorecidos. O sistema de magia, apesar de muito interessante, esteve tímido e misterioso neste primeiro volume, o que aguça ainda mais a curiosidade para o próximo livro da trilogia.

O Navio Arcano possui tantas vertentes que fica complicado listar todos os pontos interessantes. Se você se sentiu atraído pela premissa, poderá ler para compreender e se deliciar com a leitura. Mas lembre-se de que se trata de uma leitura lenta, no qual você precisa ler com calma para entender e absorver os elementos fascinantes dela.

É por essas e outras que eu amo um calhamaço. Nada melhor do que você acompanhar a construção de mundo, o desenvolvimento dos personagens e o desenrolar da trama com bastante calma e tempo para trabalhar todas essas coisas igualmente bem.

A verdade é que me deixei seduzir e me apaixonei por Robin Hobb, logo no primeiro encontro. Estou muito feliz em saber que ainda tenho uma trilogia à minha espera, além dos dois próximos livros da trilogia Os Mercadores de Navios-Vivos serem lançados já em 2018. Só me resta desejar que A Saga do Assassino não me decepcione e seja tão boa quanto O Navio Arcano.


O Navio ArcanoTítulo: O Navio Arcano (Os Mercadores de Navios-Vivos #1)
Autora: Robin Hobb
Tradução: Gabriel Oliva Brum
Editora: Leya
Ano: 2017
Páginas: 864
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SINOPSE: Robin Hobb retorna ao universo ficcional de A Saga do Assassino numa nova trilogia, “Os Mercadores de Navios-Vivos”. Nesse primeiro volume, O Navio Arcano, Robb faz referências a clássicos como Moby Dick e Mestre dos Mares para conduzir o leitor por uma aventura marítima repleta de magia, contando a história de um orgulhoso grupo de famílias que navega por mares bravios repletos de piratas e serpentes, a bordo do seu protagonista: os seus navios-vivos – embarcações raríssimas e mágicas feitas de madeira-arcana, capazes de adquirir vida própria. Com personagens muito bem caracterizados, tanto física quanto psicologicamente, Robin Hobb tece uma trama envolvente e complexa, que seduz o leitor a cada página.

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