RESENHAS

Resenha | Candyman, Clive Barker

Você parou para pensar que coisas ruins como o medo, o desespero, o horror e a própria morte podem ter um sabor? Se ao invés desse sabor for algo amargo como fel, tivesse em sua boca o gosto de algodão doce, ou do próprio mel. Pois bem, embarque nas linhas comigo, e vamos falar de Candyman!

Candyman é um conto do escritor britânico Clive Barker. Originalmente escrito como The Forbidden, (O Proibido, em uma livre tradução), nos é trazido aqui ao Brasil pela editora Darkside Books, em uma edição exclusiva. (Sim, amigos. Apenas aqui em nossas terras não tão tupiniquins, temos esse conto em formato de história única). Nessas 112 páginas, conhecemos a universitária Helen Buchanan. Ela está trabalhando em uma tese acadêmica sobre pichações em locais públicos, sua representação, relevância, influência na sociedade e como são vistas em um padrão estético. Para se aprofundar em sua pesquisa ela escolhe um decadente conjunto habitacional localizado em Spector Street.

O local possui um acervo de arte de rua (ou para muitas pessoas, uma galeria de vandalismo), de construções miseráveis, abandonadas, tomadas pela imundice e desrespeito humano. Em um entre tantos apartamentos desabrigados na região, Helen fica encantada com o desenho de uma cabeça peculiar pichada e próximo dela a seguinte frase: “Doces para um doce”. Estes dois itens possuem uma aura de lenda urbana que instigam seu lado pesquisador e investigativo e a levam por um caminho que não tinha nada a ver com o que ela buscava: lendas urbanas.

“Doces para um doce.”

Helen é levada a esse caminho quando conversa com uma das moradoras locais, e descobre que Spector Street é tão excluída perante o resto da cidade que ocorreram assassinatos brutais nessa região e estes nunca obtiveram grandes proporções na mídia.

Além das lendas urbanas, o autor trabalha uma característica um tanto quanto comum no universo acadêmico: a arrogância que atinge os universitários, mostrando como se sentem superiores quando se trata sobre histórias que acercam as mais variadas comunidades. Um erro grotesco, pois em muitos campos no mundo acadêmico, principalmente se levar em consideração na área de ciências humanas, o relato oral é uma importante fonte histórica que auxilia estudiosos para compreender melhor a construção da história humana e suas relações com o ambiente em que determinado grupo de seres humanos se encontram.

“Para que serve o sangue, senão para ser derramado?”

Entre esses colegas universitários está o marido de Helen. Os dois não se encontram em uma relação saudável.  Constantemente eles entram em discussões que são uma espécie de jogos mentais para massagear o próprio ego. Mas, ao contrário de seu cônjuge, ela se encontra cada vez mais cansada. A situação que deixou de ser um desafio para uma rotina que deixa complicado o relacionamento do casal.

“O que os bons sabem?” Disse ele. “Além do que os maus lhes ensinam com seus excessos?”

Como falei logo de início, seria possível o terror ter um gosto doce? Helen descobre isso quando aparece para ela Candyman, ou no nosso Português, Homem-Doce. Ele é temido e de certa forma, endeusado pela comunidade em que sua lenda é conhecida. As mortes e o derramamento de sangue que esse ser leva para Spector Street é o que dá vida ao local. Um tanto quanto irônico, não é? Outra característica para ser ressaltada sobre Candyman acaba se tornando sua necessidade em se fazer as pessoas crerem que ele é mais que uma lenda, mas sim algo real. O sobrenatural capaz de trazer equilíbrio em nossas vidas.

Eu já havia ouvido falar no autor e em algumas de suas obras mais famosas, como Hellraiser e Evangelho de Sangue, mas nunca tive a experiência de ler ou assistir algumas de suas histórias. Dando uma olhada em sua biografia, puder ver que entre suas influências estão nomes consagrados do horror como Stephen King, H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe. Difícil se inspirar em nomes tão fortes e fazer algo errado.

Enfim, acredito que com Candyman entrei com o pé direito nessa relação de leitor, livro e escritor. Terminei o livro e termino essa resenha com um gostinho de quero mais. Esse gosto é um pouco doce, o que me faz pensar que é melhor eu ter cuidado!

Exemplar cedido em parceria com a editora.


Candyman

Título: Candyman
Autor: Clive Barker
Tradução: Eduardo Alves
Editora: Darkside Books
Ano: 2019
Páginas: 112
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Sinopse: Não é lenda urbana: Candyman está de volta. Você tem coragem de ler a história que deu origem a um dos personagens mais assustadores do cinema? Então prepare-se para a edição exclusiva, em capa dura, de mais uma obra-prima de Clive Barker, num livro doce e sangrento como só a DarkSide Books poderia lançar.
Em 1992, os fãs de filmes slasher ganharam um novo motivo para ter medo da escuridão. Um assassino sobrenatural que dilacerava sem perdão todos aqueles que ousavam repetir cinco vezes o seu nome: Candyman. O personagem, encarnado pelo ator Tony Todd, se tornou um bicho-papão coletivo de pelo menos duas gerações que cresceram rebobinando clássicos do terror em VHS. Mas muitos ainda não tiveram a chance de entrar em contato com a entidade original. Candyman nasceu da mente genialmente doentia de Clive Barker. Sua primeira aparição aconteceu em 1985 como uma novela literária (com o título The Forbidden), publicada em uma das muitas coletâneas do autor.
Na adaptação para o longa-metragem, produzido pelo próprio Barker, trama, cenário e protagonistas sofreriam alterações. Mas a maldição continua ali, assim como as abelhas e a mão de gancho vingadora. Um dos grandes prazeres mórbidos é justamente descobrir as diferenças entre o livro e o filme. E se você quiser criar o clima ideal, a dica é abaixar a luz e acompanhar a leitura com a trilha sonora original composta por Phillip Glass. Os arrepios estão garantidos.
Candyman chega aos leitores brasileiros com uma edição que não se encontra igual em lugar nenhum do mundo. A autorização veio do próprio Clive Barker, em sinal de reconhecimento do autor pela paixão e o respeito com que a DarkSide Books vem publicando sua obra. Do autor, a DarkSide já lançou Hellraiser: Renascido do Inferno e Evangelho de Sangue. O mestre em pessoa declarou que é impossível haver uma edição mais bonita de Hellraiser do que a brasileira e a indicou aos leitores gringos: “Um item que definitivamente todo colecionador precisa ter […], mesmo sendo em outro idioma”. Estamos prontos para repetir o sucesso. E se você seguiu o conselho e está lendo este release em voz alta, atenção. Você acaba de evocar o nome de Candyman pela quinta vez. Tome muito cuidado.

20 Comentários

  • Marcus Silva

    Uma resenha inquietante, vou abrir esta porta, após terminar a leitura atual : Insônia de Sephen King.
    Agradeço-lhe pela atmosfera criada no texto.
    Marcus

  • Fernanda Pedotte

    Que capa é essa!? A DarkSide arrasa nas edições e essa é mais uma que quero!
    Eu tenho Hellraiser aqui, ainda não li, mas o autor tem um estilo que gosto e espero ler em breve, agora vou acrescentar mais esse.
    Essa parte de lendas urbanas e o sobrenatural me instigam demais. Fiquei bem curiosa.

    bjs

    • Rogério Augusto

      Eu nunca havia lido nada do autor, mas quero conhecer cada vez mais. E esqueci de elogiar o capricho da edição. Maravilha. Hellraiser é outra obra que desejo ler dele. Ficamos no aguardo

  • Jessica Rabelo

    Oi Rogério.
    Menino, eu morro de medo dessas coisas, mas adoro em livros. Acho que quando o autor se baseia na crença popular, como o caso das lendas, fica ainda mais instigante. Sinto que teria bastante medo na hora da leitura (o que é bem raro, apesar da minha “medrosice”). Mas fiquei encucada com o desenrolar da história.
    Sinceramente, quero muito ler.
    Beijos.
    Fantástica Ficção

    • Rogério Augusto

      Eu nunca havia lido nada do autor, mas quero conhecer cada vez mais. E esqueci de elogiar o capricho da edição. Maravilha. Hellraiser é outra obra que desejo ler dele. Ficamos no aguardo. P.S eu também sou medroso hehehe

  • Cecília Justen de Souza

    Ei! Tudo bem?

    Que indicação maravilhosa! Conhecia o autor, mas não tinha me aprofundado nas suas histórias. Gostei muito da temática, da sua resenha e nos escritores que o autor se inspira, realmente, é difícil alguém se sair mal quando pega Poe, por exemplo, como referencia. Parabéns pela resenha! Fiquei empolgada para ter mais do autor em minha estante.

    Beijos!

    • Rogério Augusto

      Eu nunca havia lido nada do autor, mas quero conhecer cada vez mais. E esqueci de elogiar o capricho da edição. Maravilha. Sim, não tem como não sair coisa boa se o cara se inspira nos mestres do terror. Beijão

  • Eloise

    Oiiii!
    Aaaah super amei tua resenha!!!! Essa será minha próxima leitura e já estou aqui super empolgada. Eu adoro Hellraiser (filmes) e pretendo em breve ler o livro, mas estou muito curiosa para ler Candyman. Já vi pela sua resenha que irei amar!<3 Se terror tem gosto de doce, deve ser de sorvete de pavê, cobertura de chocolate e granulado clorido 😀 !

    Bjokas da Elo!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com/

    • Rogério Augusto

      Eu nunca havia lido nada do autor, mas quero conhecer cada vez mais. E esqueci de elogiar o capricho da edição. Maravilha. Hellraiser é outra obra que desejo ler dele. Ficamos no aguardo

  • Isabela Manhães

    AAAAAAA, que resenha incrível! Conheci esse livro por conta desse lançamento da Darkside e tava de olho nele mesmo sem saber nada da história. Agora que sei um pouco sobre ela fiquei muito curiosa! Que trama! E que super influências do escritor! Não sabia que ele era o escritor de Hellraiser também, muito bacana! Enfim, adorei tudo e já quero!

    Beijos,
    Isa
    taglibraryisa.blogspot.com

    • Rogério Augusto

      Eu nunca havia lido nada do autor, mas quero conhecer cada vez mais. E esqueci de elogiar o capricho da edição. Maravilha. Hellraiser é outra obra que desejo ler dele. Ficamos no aguardo

  • Ana Claudia Ponce

    Dark Side arrasa na escolha dos títulos publicados e nas edições <3 Não conhecia o autor, já que o gênero terror não é nem de longe minha praia (pensa numa pessoa cagona – pois é, sou eu). Achei super interessante o autor utilizar lendas urbanas em sua narrativa, em minha opinião só deixa a história mais inquietante e interessante ainda.
    Beijinhos.

  • Mari Barros

    Oi, tudo bem?

    Para ser sincera, eu nunca li nada do autor e tenho certos receios com terror e seus similares. Mas esse me parece ser um conto muito bom e que faz valer a leitura. A DS arrasa nas edições, ne? Sou pirada nos livros deles!

    Beijos,
    Blog Diversamente

  • Jacqueline Vasconcelos

    Oi,tudo bem?

    Nossa que resenha maravilhosa, você ressaltou bem os pontos positivos da obra assim como sua jogada com o nome no final me deixou maluca(sou medrosa) kkkkk . O livro tem uma capa maravilhosa, assim como a proposta e o fato de ter uma lenda…aumenta bastante o peso da obra, além dos quotes estarem atrativos mostrando bem o quanto a obra está com um trabalho incrível e é uma ótima indicação.

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