Resenha: A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil – Becky Chambers

Existem livros que nos trazem uma infinidade de sentimentos. Alguns arrancam suspiros, enquanto outros nos deixam com medo. Existem livros que nos deixam angustiados, tristes e de coração apertado. Livros que provocam as mais espontâneas gargalhadas e nos fazem muito feliz. A Longa viagem a um pequeno planeta hostil é um livro que aquece o coração.

“Do chão, nós nos erguemos;
Nas nossas naves, vivemos;
Nas estrelas, sonhamos.
(Provérbio exodoniano)”

A nossa jornada se inicia quando Rosemary, uma guarda-livros está saindo de Marte, seu planeta natal pela primeira vez para embarcar na Andarilha, uma nave espacial interespécie responsável por perfurar túneis no espaço e facilitar o tráfego para outras naves, como um buraco de minhoca.

Os ingredientes mais importantes para uma história de sci-fi estão presentes aqui. O universo é muito bem construído, consistente e extremamente crível. As inúmeras espécies que vemos durante a história dão um show de peculiaridades à parte. As maquinações políticas de uma história recheada de espécies e culturas diferentes resultam na tensão constante dentro da trama. Os esclarecimentos científicos foram mais do que satisfatórios, consegui acompanhar e compreender a maioria das explicações tecnológicas.

No entanto, essa é uma história sobre pessoas. A construção, o desenvolvimento e a relação que elas têm entre si é o que torna esse livro tão incomum.

Não só me importei, mas me apaixonei por todos eles. Até mesmo pelo algaísta reservado e ranzinza. O mais interessante destes personagens é que além de extremamente cativantes e amáveis, eles são gente como a gente, complexos e reais.

Por mais que acompanhamos a maior parte da história sob o ponto de vista de Rosemary, os demais tripulantes da Andarilha são tão importantes quanto ela, e todos tem o seu momento. E nesses momentos, vamos acompanhando várias histórias que ajudam a construir o personagem, seja sobre ele, ou sobre sua espécie.

Uma das coisas que mais gostei dentro dessa convivência entre eles, foi como eles se esforçam para ajudar um ao outro. Diante de uma nave interespécie com pessoas de culturas e personalidade tão diferentes umas das outras se esforçando para construir um ambiente harmonioso e familiar, este livro também me fez querer ser melhor.

“Tudo o que você deve fazer é trabalhar para ser uma força positiva.”

Por mais que eu tente, não consigo definir qual o meu personagem favorito. Ashby, o capitão da nave é extremamente atencioso, empático e compreensivo, e grande parte da nave ser tão harmoniosa se dá a ele. Sissix, nossa navegadora, foi a maior e melhor surpresa entre os personagens; com uma espécie e cultura totalmente diferente da maioria dos tripulantes, ela é a mais receptível e amável com os seus companheiros, fazendo-os se sentir confortáveis, em casa. Já Kizzy, nossa mecânica, é a alegria da nave. Os momentos mais divertidos da história são provenientes do seu jeito altamente espontâneo e divertido. Estes três em especial atingiram um lugar especial no meu coração, mas me senti preenchida graças a todos eles, Rosemery, Jenks, Dr. Chefe, Ohan, Lovey e Corbin. <3

A longa viagem a um pequeno planeta hostil também é um livro que não, eu iria dizer que ele dá nó, mas na verdade desata nós da cabeça, alguns que eu nem sabia que existia. Com uma exibição de culturas infinitamente peculiares à nossa, este livro traz muita desconstrução e expande a mente de uma forma deliciosa.

Somos inseridos dentro de uma história que possui diversas culturas com ideologias e hábitos diferentes das quais estamos tão acostumados a vivenciar, e essa quebra de padrões e leis a princípio choca. Assim como Rosemary – na qual me identifiquei muito, inclusive – senti uma leve relutância, mas conforme passei a conviver com essas diferenças, aprendi a apreciar e reconhecer o quanto elas são naturais e particulares. E o fato de ver as outras espécies olhar para os humanos exatamente da mesma maneira, me fez compreender ainda mais. Nem sempre você será capaz de entender as diferenças de cada um, basta respeitar e aceitar.

“Não julguem outras espécies pelas suas próprias normas sociais”.

Felizmente, essa é uma história evoluída, que exibe uma trama livre de machismo e objetificação das mulheres. O empoderamento feminino está fortemente representado e foi uma das coisas que mais me deixou empolgada e com o peito estufado de orgulho.

A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil apresenta uma história simples, porém grandiosa. Não é uma história com guerras e ação de tirar o fôlego, mas Becky Chambers encontrou o ritmo ideal para construir a sua história. Todas as partes do livro foram ricamente preenchidas, com cenas precisas e fundamentais. Não há diálogos ou situações descartáveis aqui, todos os momentos são importantes e trazem alguma bagagem para a trama.

“Não havia nada no universo que pudesse durar para sempre. Nem as estrelas. Nem a matéria. Nada.”

À medida que o livro foi chegando ao fim, me peguei em negação, porque não queria que ele terminasse. Eu não cansaria tão cedo de continuar acompanhando o cotidiano e mais inúmeras longas viagens junto dessa tripulação na qual me apeguei tanto. Já estou com saudades, de todos eles.

Vale ressaltar que esta edição da DarkSide está magnífica, como sempre.

Com as expectativas nas nuvens, esse livro não é nada do que eu esperava. Ele me levou até as estrelas e me ofereceu uma experiência especial, incomum e incrível. De verdade, leiam. <3

“Rosemary virou de costas para a nave, de costas para a sua companheira, e encarou o vazio. Havia uma nebulosa ali, uma explosão de poeira e luz, o corpo inflamado de um gigante antigo. Dentro das dobras gasosas dormiam aglomerados de estrelas ainda não nascidas, brilhando suavemente. Ela tomou consciência do seu corpo. Sentiu a sua respiração, o sangue, as ligaduras que mantinham tudo unido. Cada pedaço, até o último átomo, fora feito ali fora, todos lançados pelo espaço aberto em uma explosão até girarem e girarem, se agitando e aglutinando, até ganharem peso, somando-se um ao outro. Contudo, não mais. Agora, os pedaços estavam flutuando, livres.
Tinham voltado para casa”.


A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta HostilTítulo: A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil (Wayfarers #1)
Autor: Becky Chambers
Tradução: Flora Pinheiro
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Páginas: 352
Comprar: Amazon

SINOPSE: O livro de Becky Chambers é um marco recente no universo da ficção científica. Lançado originalmente através de financiamento coletivo pela plataforma Kickstarter, ele conquistou a crítica especializada e os ainda mais exigentes fãs do gênero, sendo indicado para prêmios respeitados, como o Arthur C. Clarke Award e o Hugo Award. Um dos motivos do sucesso de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é a abordagem da história. Elementos essenciais em qualquer narrativa sci-fi estão muito bem representados, como a precisão científica e suas possíveis implicações políticas.
O gatilho principal é a construção de um túnel espacial que permitirá ao pequeno planeta do título participar de uma aliança galáctica. Mas o que realmente torna único esse romance on the road futurístico e muito divertido são seus personagens. Instigantes, complexos, tridimensionais. A autora optou por contar a história de gente como a gente, ainda que nem todos sejam terráqueos, ou mesmo humanos. A tripulação da nave espacial Andarilha é composta por indivíduos de planetas, espécies e gêneros diferentes, incluindo uma piloto reptiliana, uma estagiária nascida nas colônias de Marte e um médico de gênero fluido, que transita entre o masculino e o feminino ao longo da vida. Temas como amizade, força feminina, novos conceitos de família, poliamor e racismo fazem parte do universo do livro, assim como cada vez mais fazem parte do nosso mundo.

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