Os Relatos da Guerra das Tempestades: Livro 1 | Livro 2 | LIVRO 3
Demorei quatro meses para terminar a leitura de Sacramentadora, o terceiro volume da série Os Relatos da Guerra das Tempestades, do Brandon Sanderson. E sim, a culpa foi da minha maior ressaca literária dos últimos anos. Mas valeu a pena atravessar essa leitura intensa, mesmo tropeçando em alguns capítulos. Essa resenha tem spoilers, então se ainda não leu, recomendo salvar para depois!
Um começo promissor
Entrei no livro com o pé atrás com Dalinar, confesso. Nas obras anteriores, ele sempre me pareceu aquele tipo de personagem que ganha tudo de mão beijada, enquanto Kaladin e Shallan ralam para evoluir. Minha expectativa era entender melhor seu passado, e torcer para que ele finalmente se tornasse mais humano e voltasse a cair nas minhas graças. Afinal, ali em O Caminho dos Reis, eu até gostava dele.
Adorei a ambientação em Urithiru, uma cidade abandonada e cheia de segredos. Estava especialmente ansiosa para ver os conflitos políticos se desenrolando, com destaque para a presença da rainha e os fervorosos. E, claro, ver Jasnah surgindo finalmente no final da parte 1 foi aquele suspiro de alívio que só quem ama a personagem entende. Kaladin também teve um momento marcante voltando para casa, embora sua família tenha me deixado com os nervos à flor da pele.
Um marasmo complicado
A Parte 2 foi, para mim, a mais difícil. O livro tem cara de transição, com pouca ação e muita introspecção, e isso somado à minha ressaca tornou tudo ainda mais lento. Shallan, por exemplo, continua interessante, mas sua persona principal (ou a própria Shallan, digamos assim) regrediu bastante, se escondendo atrás de identidades como a misteriosa Vel. Fiquei genuinamente preocupada com o estado psicológico da personagem, que parece cada vez mais fragmentada.
A Ponte Quatro, que costuma aquecer meu coração, finalmente ganha seus próprios capítulos, mas, para minha surpresa, os achei um tanto arrastados. Apesar do carinho que tenho por personagens como Teft e Rocha, percebi que os prefiro no papel de coadjuvantes, brilhando em pequenas doses ao lado de Kaladin (pegou, rs?). Os únicos capítulos que realmente prenderam minha atenção foram os de Moash, com sua vibe sombria e vingativa, e os de Rlain, sempre muito complexo.
Os flashbacks de Dalinar começam a mostrar suas falhas: sua relação abusiva com Evi, por exemplo, me deixou desconfortável. A maneira como ele a tratava, sua indiferença emocional, e a revelação de que foi indiretamente responsável por sua morte são duríssimas. E mesmo ao apagar a memória, algo nele permanece quebrado. Foi só ao confrontar essa verdade que ele, enfim, pareceu ganhar profundidade.
Quando o livro engrena
A Parte 3 finalmente trouxe o ritmo que eu esperava. Os interlúdios brilharam: o conto da transmutadora mostrou os custos (emocionais e físicos) do cargo, o que eu desconhecia, e o ponto de vista de Taravangian continua sendo um dos mais fascinantes da série. Ele é um verdadeiro lobo em pele de cordeiro. E o Diagrama, sua sociedade secreta, é uma das maiores ameaças em Roshar, mesmo ele achando o contrário.
Os segredos do passado de Dalinar vêm à tona de forma brutal, e mesmo assim, ainda o acho hipócrita. No entanto, seu confronto com a Euforia, assumindo sua culpa sem recorrer aos atalhos oferecidos, foi poderoso, sem dúvida um dos melhores momentos do livro. Ao proclamar o terceiro ideal dos Vinculadores, ele selou um pacto importante que tocou até mesmo a mim, que não sou tão fã do personagem, mas sua força e importância para a série são indiscutíveis até aqui.
O caos em Kolinar me prendeu do começo ao fim. A aparição de Azure foi um dos momentos mais legais do livro, especialmente para fãs que amam fã services e conexões implícitas com outros livros/mundos da Cosmere (Warbreaker). Tudo nela grita que há uma história por trás sendo contada ali, especialmente quando ela menciona Zahel, só não temos acesso a ela ainda. Mas já adianto que estou ansiosa por isso.
Mais uma vez, Kaladin carrega o peso emocional do livro nas costas, enfrentando um dos dilemas mais cruéis de sua trajetória: ver humanos e parshendianos se matando, sem conseguir escolher um lado, apenas paralisado pela dor. Enquanto isso, Elhokar tenta, tardiamente, se tornar um verdadeiro rei… e morre de forma trágica. Uma perda simbólica, claro, mas sinceramente? Foi um alívio. Eu ansiava por esse momento desde o primeiro livro, Elhokar sempre foi insuportável. Estava tão certa de que ele não passaria deste volume justamente porque, veja só, ele começou a melhorar. E conhecendo o Sanderson, pensei: ele vai nos fazer gostar do personagem só para esmagar nossos corações. Mas não, comigo não funcionou. Não esqueci nada do que ele fez. Cada cena dele me fez passar raiva, e sua tentativa tardia de redenção não me comoveu. Então, já vai tarde. O mais curioso, porém, foi ver como a morte dele quase não teve impacto nos outros personagens. A impressão é que ninguém realmente se importava, o que no fundo, é ainda mais triste. Afinal, se nem a narrativa parece lamentar a queda de um rei, o que isso diz sobre o rei que ele foi?
E Shallan? Ela tem interações incríveis com Riso (Hoid), cheias de poesia, mas também carregadas de um flerte de identidades. Ela se mostra fascinada e talvez instintivamente assustada com alguém que parece vê-la além das máscaras. Hoid joga pistas sobre a Cosmere, pistas que só vamos entender melhor com tempo e leitura. Mas aqui, já é possível sentir: tem coisa muito maior acontecendo. Como sempre.
Reta final de altos e baixos
Na Parte 4, a frustração voltou. É como se acompanhássemos os personagens mais ignorantes de Roshar, todos os grandes segredos estão nas mãos de Jasnah, Taravangian, Renarin, Hoid… e a gente segue com o grupo que sabe de nada. A travessia para Shadesmar foi anticlimática, mas depois me encantei com aquele mundo e queria, inclusive, um livro inteiro ambientado lá (à la Tress!).
Adolin continua sendo o raio de sol da narrativa: empático, divertido e forte, mesmo vindo de uma infância emocionalmente negligente. Szeth, por outro lado, ficou aquém. Seus capítulos me pareceram desinteressantes, e só a espada Nightblood salvava. Renarin, que poderia ganhar mais espaço, segue misterioso e subaproveitado.
Na Parte 5, o final chegou atropelado. A redenção de Dalinar foi emocionante no confronto com Odium, mas rápida demais para o peso do que ele carrega. Kaladin enfrentando Amaram virou cena de filme de sessão da tarde. Preferia vê-lo protegendo Dalinar de inimigos mais consistentes. Shallan, que teve um ótimo arco, encerra com um momento meio absurdo. O livro termina com um casamento, e não com o funeral do rei que ninguém liga, o que me deixou um pouco desconcertada.
Apesar de tudo, dou 4 estrelas para Sacramentadora. O livro entrega momentos grandiosos e emocionalmente potentes, mas sofre com um certo desequilíbrio entre sofrimento e recompensa. Em Palavras de Radiância, os personagens sangram, sim, mas também vencem. Já aqui, a dor parece se acumular sem contrapeso. E não falo apenas de vitórias em batalha, mas daquela sensação de avanço: revelações importantes, segredos desvendados, compreensão do mundo e de si. Falta um pouco desse senso de recompensa que justifique tanto sofrimento.
E o que me bateu no final foi um tipo diferente de ansiedade: vai dar tempo de amarrar tudo isso? Afinal, já passamos da metade do “primeiro arco” e ainda me sinto no escuro. Ao conhecer sociedades como os Sanguespectros, o Diagrama e os Rompecéus, e personagens brilhantes como Taravangian ou até mesmo Jasnah (que seguimos vendo pouco), a sensação é de que estamos na pontinha do iceberg. Ainda não temos acesso às pessoas certas. E se o que estamos descobrindo vai além da trama de Os Relatos das Guerras das Tempestades? E se está transbordando para algo maior na Cosmere?
O que quero para o próximo volume?
Para o próximo volume, espero ver uma narrativa mais transparente com os protagonistas, chega de segredos que só o leitor sabe, enquanto os personagens seguem às cegas. Quero também mais destaque para figuras essenciais como Jasnah, Taravangian e Renarin, que parecem sempre operar nas sombras das grandes decisões, mas são claramente peças-chave do tabuleiro. Os esprenos, especialmente Syl, merecem mais espaço e atenção: são parte fundamental da magia do mundo e, mesmo assim, são frequentemente deixados de lado, até por Kaladin. E torço por menos ingenuidade e um pouco mais de malícia nas decisões dos personagens, principalmente nas de Dalinar. A essa altura da história, certas traições já deveriam estar escancaradas para ele. Por fim, sigo na torcida por mais Adolin. Seu brilho continua sendo uma das coisas mais adoráveis da série.
★★★★
E você, já leu Sacramentadora? Vamos conversar nos comentários!



