Resenha | O Aprendiz de Assassino, Robin Hobb

A #MML2018 (Mega Maratona Literária 2018, ou como eu carinhosamente chamo, Melhor Maratona Literária) foi criada pelo Victor do Geek Freak, com o intuito de dedicarmos as primeiras semanas dos próximos 6 meses para ler os livros encalhados da estante. Preciso explicar o porquê essa é a melhor maratona? Finalmente pude me organizar e encontrar um espaço entre as leituras de parcerias e os famigerados furadores de fila para ler livros esquecidos, que seguem tímidos e ofuscados pelos lançamentos tentadores.

Creio que eu não poderia ter começado melhor, porque ao iniciar O Aprendiz de Assassino me reencontrei com Robin Hobb, a autora do “amor à primeira história”. O Navio Arcano continua sendo o meu livro favorito dela, mas este me trouxe uma experiência diferente, ao mesmo tempo em que reforçou as características que mais gostei  com relação a sua escrita: a narrativa detalhada, capaz de descrever cenários e sentimentos com muita precisão, além do seu dom para construir personagens. Principalmente os odiosos.

Em O Aprendiz de Assassino acompanhamos a jornada do jovem Fitz desde quando ele era um garotinho. Narrado em primeira pessoa, as primeiras lembranças de Fitz são um tanto nebulosa. Ainda assim conseguimos compreender tudo o que acontece no momento que ele surge como o bastardo do Príncipe Cavalaria e abala toda a sociedade dos Seis Ducados. Seus cuidados são resignados a Bronco, o fiel cocheiro de seu pai, e durante muito tempo ele é ignorado e tratado como invisível, vivendo entre os cães nos estábulos da corte. Isso mudo quando ele é notado pelo Rei Sagaz, que imediatamente começa a traçar planos para a vida do garoto. É aí que o nome do livro começa a fazer sentido.

Robin Hobb se dedica bastante construindo o seu mundo e uma das características mais interessantes está relacionada ao nome dos personagens. Uma das tradições entre a nobreza é batizar suas crianças com um nome que sugira virtude ou habilidade a fim de influenciar sua personalidade e o seu papel perante a sociedade. Nomes como Cavalaria, Veracidade, Paciência, Sagaz e Majestoso são exemplos disso. O mais intrigante é perceber o quanto cada nome faz jus à principal virtude daquele que o leva, como se algum tipo de mágica estivesse relacionado a isso.

“Um governante deve ser de todo o seu povo, porque um homem só pode governar o que conhece”.

Os personagens são apresentados e desenvolvidos através de nuances que os tornam muito consistentes. É difícil gostar e confiar pra valer neles por conta de sua complexidade, então você opta por conhece-los aos poucos, sabendo que poderá se surpreender tanto de forma positiva quanto negativa. E isso é espetacular, porque na realidade as pessoas não são exatamente assim? Em contrapartida, é possível odiar com muita intensidade vários deles (Majestoso rima com odioso, e isso não é coincidência). Para um leitor como eu, que ama desenvolvimento de personagens, o nervoso que eu passo com os embustes acaba valendo a pena, visto que você também pode se deliciar tentando compreender e decifrar o restante deles.

Mesmo que durante sua jornada Fitz encontre pessoas que o querem bem, ele é um personagem solitário, que desde muito pequeno foi obrigado a conviver com os seus medos e enfrentar sozinho os seus problemas. Ele vive constantemente sendo testado, sendo tratado com muito desdém por ser o responsável por manchar o nome de seu pai, que até então era impecável. Da maneira como Robin Hobb escreve, é impossível não se ver sob a pele do personagem, vivenciando todas as suas angústias. É o tipo de personagem que você se apega e com muita facilidade se vê torcendo para que tudo dê certo, mas é claro que não é isso o que acontece.

“São tempos difíceis, rapaz, e não sei se algum dia irão acabar”.

A parte mais interessante da história fica a cargo da invasão dos bárbaros dos Navios Vermelhos, quando eles começam a atacar a costa e coisas muito estranhas começam a acontecer. Entre elas, a forma com que esses bárbaros lidam com os seus reféns. É melhor que eles sejam mortos do que devolvidos, porque quando são libertados já não são mais os mesmos. Sim, vou me abster de explicar melhor sobre isso, porque a graça está em descobrir tudo durante a leitura. Porém, declaro que essa foi a parte que mais me deixou curiosa e instigada pela história, e acredito que foi por causa desse mistério que eu a devorei com tanta intensidade.

O mundo apresentado aqui por Robin Hobb é bem diferente daquele que vi em O Navio Arcano, mas podemos identificar através de algumas referências sutis que ele é o mesmo. Sei que comecei pela ordem errada e por enquanto não identifiquei problemas nisso, entretanto pretendo finalizar A Saga do Assassino antes de continuar a trilogia dos Mercadores de Navios-Vivos para me privar de algum conflito futuro.

Apesar da narrativa da autora seguir o estilo que eu mais gosto, não posso negar que há partes bastante lentas aqui. Acredito que O Aprendiz de Assassino seja uma boa introdução ao seu universo e a Fitz, mas as coisas ficam envolventes e agitadas de verdade na reta final da história, quando Fitz é obrigado a colocar em prática todo o seu treinamento e percebe que ele está lidando com pessoas muito mais inteligentes do que ele. A última parte do livro foi simplesmente de perder o fôlego.

Como o primeiro livro de uma trilogia, O Aprendiz de Assassino eficientemente cumpre o seu papel. Me apeguei aos personagens e fiquei muito intrigada com o sistema de magia e o universo. Já estou mega ansiosa para continuar acompanhando a jornada de Fitz, mesmo com a vaga noção de todo o sofrimento que está por vir.  Por favor Robin Hobb, tenha piedade de mim!


O Aprendiz de AssassinoTítulo: O Aprendiz de Assassino (Saga do Assassino #1)
Autora: Robin Hobb
Tradução: Orlando Moreira
Editora: Leya
Ano: 2014
Páginas: 416
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SINOPSE: O jovem Fitz é o filho bastardo do nobre Príncipe Cavalaria e foi criado pelo cocheiro de seu pai, à sombra da corte real. Ele é tratado como um penetra por todos na realeza, com exceção do Rei Sagaz, que faz com que ele seja secretamente treinado na arte do assassinato. Porque nas veias de Fitz corre a mágica do Talento e o conhecimento obscuro de um garoto criado em um estábulo, entre cães, e rejeitado por sua família. Quando assaltantes bárbaros invadem a costa, Fitz está se tornando um homem. Logo ele enfrentará sua primeira missão, perigosa e que despedaçará sua alma. E embora alguns o vejam como uma ameaça ao trono, ele pode ser a chave para a sobrevivência do reino.

4 comentários

  • Viviane Oliveira

    Parece que hobbin te envolveu! Gostei, sou do fã clube da idade média 🙂
    E ainda bem que ler fora da ordem não comprometeu ne, afinal, quem nunca cometeu esse deslize?! hehehe
    Espero que suas leituras nessa maratona tenham continuado de vento em popa!

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

  • Tatiana Rodrigues de Castro

    Olá!
    Esse é um enredo de fantasia bem diferente do que estou acostumada. Só esse fato já me deixou mega curiosa. É mais estimulante quando conseguimos nos envolver na leitura e torcer para os personagens, ou ainda, odiar outros…rsrs.
    Beijos!
    gatitaecia.blogspot.com.br

  • Clube do Farol

    Uma amiga minha leu esse livro (a trilogia toda na verdade) e está desde o ano passado querendo que eu leia também, não sei se tem algo que a fez sofrer no livro, para querer dividir com alguém ou outro motivo, rs. Mas ela me falou muito bem dessa autora e alguma hora eu vou me render e acho que vou acabar lendo O Navio Arcano também, porque assim vou entender o seu amor à primeira vista.
    Boa sorte e boas leituras na maratona!
    Parabéns pela resenha!
    Bjo
    ~ Danii

  • Jessica Rabelo

    Oii Gisele.
    Eu acho que me lembro da sua resenha dos primeiro livro que leu da série, e fiquei bem impressionada com o que se pode esperar da obra. Apesar desse não superar, parece que a história continua valendo a pena por conta dos personagens que devem ser fantásticos.
    Gosto muito da proposta do livro.
    Espero ler em breve.
    Beijos.

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