Resenha | O Temor do Sábio – Patrick Rothfuss

“Lembre-se de que há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil.”

O que gosto de fazer na maioria das minhas resenhas, é colocar em palavras os sentimentos que um livro desperta em mim.  Quando li O Nome do Vento, não fiz resenha, anotação ou marcação, mas sei que gostei bastante da história, mas não conseguia lembrar exatamente o porquê. Ao iniciar O Temor do Sábio, tive a resposta logo nas primeiras páginas.

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O Temor do Sábio se inicia exatamente do mesmo ponto onde O Nome do Vento foi finalizado, mas desta vez, estamos no segundo dia no qual Kote apresentará mais uma parte de sua história ao Cronista. Nos vemos novamente nos arredores da Universidade acompanhando o cotidiano do jovem Kvothe, assistindo aos seus aprendizados, conflitos e triunfos. Em meio a essa rotina, Kvothe se vê diante de uma situação tensa e é aconselhado a se afastar da Universidade por um tempo. É aí que a aventura começa de verdade e podemos ter um vislumbre de como Kvothe constrói sua fama.

“A madeira era cor de café escuro, de terra recém-revolvida. A curva da caixa tinha a perfeição de um quadril de mulher. Era todo eco abafado, com corda e dedilhado luminosos. Meu alaúde. Minha alma tangível.”

Uma das (muitas) partes que mais gostei no livro e resposta para os meus questionamentos no início desta resenha, está logo no início, em um momento delicado e singular, com Kvothe junto ao seu alaúde. Os sentimentos que o autor é capaz de transmitir minuciosamente através das palavras despertou em mim uma emoção tão grande que há muito não sentia. Este é o grande diferencial dessa história e o motivo de eu gostar tanto dela. A narrativa é delicada e poética, te toca direto no coração e arranca suspiros, independentemente de você estar lendo uma cena romântica ou não. A forma com que Rothfuss conduz a história transborda emoção e sem muito esforço você se vê na pele de Kvothe, sentindo toda a sua carga emocional e vivenciando cada estado de espírito do personagem.

“Portanto, sim, ele tinha suas falhas, mas que importância tem isso, quando se trata de questões do coração? Amamos aquilo que amamos. A razão não entra nisso. Sob muitos aspectos, o amor insensato é o mais verdadeiro. Qualquer um pode amar um coisa por cause de. É tão fácil quanto pôr um vintém no bolso. Mas amar algo por causa de, conhecer suas falhas e amá-las também, isso é raro, puro e perfeito”.

No primeiro terço do livro, enquanto acompanhamos a jornada de Kvothe na Universidade, temos mais do mesmo, os conflitos do jovem prodígio que depende dele mesmo para se bancar, as dificuldades do dia-a-dia, os problemas com Ambroze (embuste :x) e os encontros inusitados com Denna. Ser mais do mesmo, quando se trata desta história não é um fator negativo, principalmente porque o cotidiano de Kvothe é extremamente interessante, e por mais que as coisas tendem a ser um pouco repetitivas, eu diria que leria sem nenhum problema outros 10 livros somente sobre os episódios de Kvothe na Universidade.

Porém, sabendo que se trata de uma trilogia e que infelizmente não há previsões nem notícias do último volume, me peguei um pouco apreensiva, esperando pela evolução de Kvothe, ansiando por ter algum indício dos seus feitos e o que aconteceu para o garoto se tornar o hospedeiro no qual temos conhecimento no presente da trama.

Como se trata de um livro relativamente grande, há muita coisa para acontecer, e um pouco antes da metade, a história começa a demonstrar as mudanças pela qual tanto ansiei.

Depois de ser induzido à se afastar da Universidade por um período, Kvothe vai até Vintas com a esperança de encontrar um mecenas para si, ou seja, um patrocinador para sua música. E é a partir daí, que as coisas mais interessantes começam a acontecer.

O Temor do Sábio é superior ao primeiro livro da trilogia, por dar ao leitor uma noção maior sobre o universo da trama, explorar culturas, começar a envolver política no contexto da história, e o principal, por ser mais profundo no desenvolvimento de personagens.

O que na minha opinião foi dos pontos fracos em O Nome do Vento, a exploração dos personagens secundários neste livro foi, além de essencial para a jornada de Kvothe, também foi explanado com muita qualidade. Tive a oportunidade de compreender e olhar com outros olhos a maioria dos personagens, principalmente quando se trata de Denna. A personagem ainda é uma incógnita para mim, mas aqui, temos um vestígio de quem ela verdadeiramente é. Não que tenha sido esclarecedor, na verdade mais um milhão de dúvidas surgiram na minha cabeça, mas pode-se dizer que me senti mais próxima da personagem.

Não só o desenvolvimento dos personagens de forma singular foi bem explorado, mas também o relacionamento entre Kvote e eles. Também uma das minhas partes favoritas, foi a interação de Kvothe com os seus amigos, Simmon, Willem, Feila, Moula e Devi. Me senti, além de realizada, extremamente grata pelos momentos incríveis que eles compartilharam no imenso arquivo. A diversão deles, rodeados de livros, informações e histórias, fez também a minha alegria.

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Uma das personagens que mais gosto e teve poucas aparições no livro foi Auri, mas em contrapartida as cenas que ela protagonizou com Kvothe, além de lindas, foram muito importantes. E, ainda falando em personagens, quando Elodin está por perto, simplesmente rouba a cena com toda sua excentricidade. Como adorei e ri nas partes que ele estava presente. Se o autor estivesse um pouco mais disposto a escrever, eu imploraria por um spin-off sobre esse personagem, que me cativa demais com o seu jeito peculiar e incomum.

Mas, sem sombra de dúvidas, o melhor acontecimento foi Patrick Rothfuss explorar uma cultura completamente diferente da qual estamos acostumados a ver. Os Ademrianos são guerreiros extraordinários e donos de uma doutrina distinta, de valor excepcional. Kvothe não só aprende as formas de comunicação, mas também vivencia essa ideologia e aprende a lutar. Os Ademrianos foi mais surpresa em meio à tantas, e ao mesmo tempo um tapa na cara da cultura machista no qual vivenciamos. Aqui, nos vemos diante de uma cultura matriarcal e não é por acaso que temos um povo tão evoluído e a frente quando se trata de questões humanas.

Entretanto, a leitura também ofereceu algumas respostas. Algumas delas relacionadas à grande fama de Kvothe, como ele mesmo ajudou a desenvolvê-la, com grandes lorotas e exageros. Por mais que seus feitos sejam grandiosos, vemos como as histórias que circulam relacionados a ele são de fato, excessivas.

“E, como minha plateia ansiava por mais, simplesmente roubei uma história referente a Illien e me pus no lugar dele. Também furtei umas coisas do Taborlin, já que estava com a mão na massa. Não me orgulho disso e, em minha defesa, gostaria de dizer que eu tinha bebido um bocado”.

Mas muito mais do que respostas, os mistérios, questionamentos e a tensão para o último volume aumentaram bastante. Eu preciso de respostas! Preciso desesperadamente entender tudo o que aconteceu para as coisas chegarem ao ponto que estão no presente da história.

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Sem sombra de dúvidas, O Temor do Sábio entrará para uma das melhores leituras de 2017. Agora começa o verdadeiro sofrimento que eu já esperava ao estender essa leitura, que é a falta de previsão para o terceiro livro, onde provavelmente se encontrará todas as respostas para os mistérios que tanto nos envolveu durante os dois primeiros volumes. Agora faço parte do clube de leitores sofredores que aguardam avidamente o último livro da trilogia. O meu consolo, é que felizmente, há inúmeras histórias incríveis esperando para serem lidas, enquanto o final desta não vem.

Se você é fã de fantasia, ou planeja se jogar neste mundo de histórias incríveis, A Crônica do Matador do Rei é fundamental e não pode faltar na sua estante.


O Temor do SábioTítulo: O Temor do Sábio (A Crônica do Matador do Rei #2)
Autor: Patrick Rothfuss
Ano: 2011
Editora: Arqueiro
Páginas: 960
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SINOPSE: Quando é aconselhado a abandonar seus estudos na Universidade por um período, por causa de sua rivalidade com um membro da nobreza local, Kvothe é obrigado a tentar a vida em outras paragens.
Em busca de um patrocinador para sua música, viaja mais de mil quilômetros até Vintas. Lá, é rapidamente envolvido na política da corte. Enquanto tenta cair nas graças de um nobre poderoso, Kvothe usa sua habilidade de arcanista para impedir que ele seja envenenado e lidera um grupo de mercenários pela floresta, a fim de combater um bando de ladrões perigosos.
Ao longo do caminho, tem um encontro fantástico com Feluriana, uma criatura encantada à qual nenhum homem jamais pôde resistir ou sobreviver – até agora. Kvothe também conhece um guerreiro ademriano que o leva a sua terra, um lugar de costumes muito diferentes, onde vai aprender a lutar como poucos.
Enquanto persiste em sua busca de respostas sobre o Chandriano, o grupo de criaturas demoníacas responsável pela morte de seus pais, Kvothe percebe como a vida pode ser difícil quando um homem se torna uma lenda de seu próprio tempo.

 

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