Resenha | Nevernight – Jay Kristoff

“Nunca trema. Nunca tema. E nunca, jamais, se esqueça.”

Não há nada melhor do que pegar um livro com as expectativas lá nas alturas, e mesmo assim ele conseguir em muito superá-las. Eu fiquei encantada. E muito surpresa.

Aos dez anos, Mia Corvere viu sua vida desmoronar diante da execução do pai, por motivos de traição. Foi separada de sua mãe e irmão vendo-os sendo presos, e em meio ao choque, conseguiu evitar um fim trágico e obrigou-se a prosseguir, motivada a se vingar e dar àqueles que lhe tiraram tudo, o que mereciam.

“Quando tudo é sangue, sangue é tudo”. 

Primeiramente, você precisa saber que essa história é uma fantasia sombria, com muito sangue, morte, violência pesada, tortura e por aí vai. Esse é um dos motivos pelo qual o livro me pegou de surpresa. Juro que estava esperando um Young Adult em suas características – mais leve e simples – mas não, aqui tudo é complexo e obscuro, desde a história, criação de mundo e personagens. Por mais que a protagonista seja uma garota de 16 anos, definitivamente não se trata de um YA.

E você sente isso com os tiros que toma já a partir do primeiro capítulo, no qual temos duas cenas completamente diferentes, mas perfeitamente intrincadas apresentando a semelhança das duas situações e no que elas acarretam para a personagem. Logo nas primeiras páginas, o livro dá indícios do quão chocante e surpreendente ele pode ser.

O mundo que Jay Kristoff criou é completo, consistente, obscuro e ao mesmo tempo brilhante. A cultura, mitologia e criaturas mágicas me deixaram maravilhada. Sabe quando você quer mais? As seiscentas páginas do livro não foram o suficiente para mim.

“Quanto mais brilhante a luz, mais profunda a sombra”.

Mia tinha todos os motivos para se tornar uma garota fria e arrogante, mas ela possui uma sensibilidade comovente e se importa com as pessoas ao seu redor, mesmo quando não é recíproco. Os demais personagens receberam uma carga importante para a história e tornaram-se sólidos, com suas próprias histórias para contar. Me apaixonei por Tric e adorei Naev, Mercurio e Ashlinn. Sobretudo o cronista Aelius e Sr. Simpático. O não-gato me conquistou com seu sarcasmo  insolente e agora tudo o que eu mais quero é um gato feito de sombras como melhor amigo. 

Os mistérios da trama esmagaram meu peito. Passei a desconfiar de todo mundo, até mesmo da própria sombra de Mia (literalmente). Me apeguei aos personagens e imaginar quem poderia estar por trás de acontecimentos terríveis ou ser a próxima vítima me despedaçou. Aliás, me senti despedaçada em diversos momentos da trama, com aquele nozinho apertado na garganta.

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Acho que o diferencial da história é possuir tantos diferenciais.

A escrita, deliciosa e precisa, com um humor dos bons, sarcástico e comedido. Jay Kristoff escreve e descreve com exímio, tanto as cenas de ação quanto as situações de maior carga emocional. Quanto à algumas (na verdade muitas) notas do autor no final das páginas, agregaram bastante para a construção do mundo. O autor possui uma maneira descontraída de conduzir as informações, um tanto dramático (propositalmente) e com um humor de arrancar gargalhadas. Achei essas notas (mais um) diferencial para o livro.

“- Receio que jamais saberá o meu nome – ela disse. Eu ando pelas sombras. Sou um murmúrio. Um suspiro. O pensamento que faz os bastardos deste mundo acordarem suando na veratreva”.

A esta altura, vocês perceberam que só foram elogios para essa obra. Eu fique com os olhos brilhando de admiração em meio a tanta coisa boa, a genialidade do autor para criar o mundo, personagens e o enredo. Recomendado a todos os fãs de livros de fantasia, independentemente da idade (com exceção de crianças, óbvio), mas claro, você precisará ter estômago para ler isso.


Mais alguns quotes faoritos:

“Um aroma familiar a levou de volta a viragens melhores: aninhada no seu quarto em cima da loja de Mercurio, rodeada por montanhas de seus melhores amigos. Os amigos que a tiraram da dor e da escandalosa luz dos sóis e da lembrança da mãe e do irmão trancafiados numa cela sem luz. Livros”.

“Livros de mais. Séculos de menos”. 

“É possível tirar uma garota da sarjeta, mas não a sarjeta da garota. Infelizmente, o mesmo vale para o luxo”.

“A beleza vem de berço, mas a inteligência é uma conquista”.

“A Luz é cheia de mentiras, acólita. Os sóis servem apenas para nos cegar”.


NevernightTítulo: Nevernight – A Sombra do Corvo – Crônicas da Quasinoite #1
Autor: 
Jay Kristoff
Ano: 2017
Editora: Plataforma21
Páginas: 608

SINOPSE: Há histórias sobre Mia Corvere, nem todas verdadeiras. Alguns a chamam de Moça Branca. Ou a Faz-Rei. Ou o Corvo. A matadora de matadores. Mas, uma coisa é certa, você deveria temê-la.
Quando ela era criança, Darius Corvere – seu pai – foi acusado de insurreição contra a República de Itreya. Mia estava presente quando o carrasco puxou a alavanca, viu o rosto do pai se arroxeando e seus pés dançando à procura do chão, enquanto os cidadãos de Godsgrave gritavam “traidor, traidor, traidor”…
No mesmo dia, viu a mãe e o irmão caçula serem presos em nome de Aa, o Deus da Luz. E, embora os três sóis daquela terra não permitam que anoiteça por completo, uma escuridão digna de trevas tomou conta da menina. As sombras nunca mais a largaram.
Mia, agora com dezesseis anos, não se esqueceu daqueles que destruíram sua família. Deseja tirar a vida de todos eles. É por isso que ela quer se tornar uma serva da Igreja Vermelha – o mais mortal rebanho de assassinos de toda a República. O treinamento será árduo. Os professores não terão misericórdia. Não há espaço para amor ou amizade. Seus colegas e as provas poderão matá-la. Mas, se sobreviver até a iniciação, se for escolhida por Nossa Senhora do Bendito Assassinato… O maior massacre do qual se terá notícia poderá acontecer. Mia vai se vingar.