Resenha | Kindred – Laços de Sangue – Octavia E. Butler

“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco”.

Kindred – Laços de Sangue foi a primeira leitura concluída do ano e eu não imagino como poderia ter começado melhor. Sabia que essa história mexeria comigo, então me preparei bastante para iniciá-la, só não imaginei que ela causaria um rebuliço em minhas emoções e mexeria de tantas formas. Tive dificuldades até mesmo para escrever esta resenha, porque a história me deixou sem palavras.

Dana, uma mulher de 26 anos está se mudando para seu apartamento na Califórnia junto com o seu marido, Kevin, quando é arrancada da sua realidade e transportada para um lugar completamente diferente, nas margens de um rio. Confusa e sem entender o que aconteceu, ela se depara com uma situação ainda mais bizarra quando vê um garotinho se afogando perto do rio onde ela está.

Dana consegue salvar a vida do garoto, mas logo em seguida é surpreendida por um homem apontando uma arma para ela. Neste momento, misteriosamente ela volta para sua realidade, sem entender o que aconteceu. Kevin, seu marido, conta que ela simplesmente desapareceu por alguns segundos, enquanto para ela, durou bons minutos entre salvar a vida do garoto e se ver na mira de uma arma.

Durante o decorrer da história, Dana continua sendo tirada de sua realidade e jogada em Maryland, por volta dos anos de 1815, sempre para ajudar o garoto Rufus, quando o mesmo está em perigo de morte. Com isso, ela desconfia que há uma espécie de ligação que ultrapassa as barreiras do tempo entre ela e Rufus.

Um dos perigos para esse retorno, é que Dana é uma mulher negra e se depara com os perigos da época da escravidão. Sempre que ela volta, mesmo quando se passa alguns minutos na sua vida real, Rufus está cada vez mais velho. Ela compreende que possui um papel importante na vida de Rufus – tentar salvá-lo do destino de se tornar um senhor de escravos bruto, como o seu pai.

Acompanhamos a luta de uma mulher que se empenha para salvar um garoto não só da morte, mas também das influências e do pensamento do século XIX. E infelizmente, lutar contra as barreiras de todo um ambiente não é fácil. Aos poucos, a luta de Dana se torna também a nossa. Além de tentar influenciar no crescimento e personalidade de Rufus, ela também necessita se enquadrar e sobreviver em um ambiente extremamente precário.

“Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão”.

O livro retrata a experiência de uma mulher livre vivenciando um período escravocrata. Ela não sofre apenas por ser uma mulher e negra, mas também por ser inteligente e saber mais do que os outros – mais do que os brancos. Somos capazes de sentir toda a sua luta e impotência, e com o passar das páginas nos sentimos sufocados e oprimidos pelas condições de um período desumano.

Nos momentos em que ela volta para o seu mundo atual, temos um pouco de alívio, mas ao mesmo tempo algumas situações do presente mostram que qualquer um de nós pode se ver diante desse período desumano e cruel, onde somos capazes de ser vítimas ou presenciar situações de extremo preconceito e racismo.

Com muitos momentos de angústia, reviver este passado tão sofrido e bárbaro não foi algo fácil. Nesta história temos a retratação do que é extremamente cruel, sem amaciamento ou idealização dos fatos. E o livro não te afeta e angustia somente pelos abusos que os escravos sofriam naquela época, mas também as suas condições de vida precária, sem um lugar decente para dormir e sujeitos a doenças.

“Já tinha visto pessoas serem surradas na televisão e nos filmes. Já tinha visto sangue falso nas costas delas e ouvido gritos bem ensaiados, Mas não havia ficado perto e sentido o cheiro de suor nem ouvido as súplicas e as orações das pessoas humilhadas diante de suas famílias e de si mesmas.”

Os personagens foram muito bem trabalhados. Mesmo como vocês imaginam, não há um personagem mal ou 100% vilão. A vilania fica por conta da cultura cruel e enraizada do período, que corrompia o caráter humano. Pode-se dizer que o preconceito é a principal figura antagonista dessa história, porque ele está presente em todo lugar, até mesmo entre os escravos. Neste aspecto, até aqueles personagens mais evoluídos, diante de uma situação cometem algum tipo de falha ou deslize, o que prova que todo mundo está sujeito a desconstruir e continuar progredindo.

“– Preta médica – disse ela, com desdém. – Pensa que sabe muito. Preta que lê.
Preta branca!”

O livro tem muita profundidade e questionamentos, e por isso ele mexe tanto com quem lê. Alguns dias depois de finalizar a leitura, é impossível me deitar para dormir e não me deixar ser arrancada da realidade e voltar para um período sofrido e obscuro, do qual descendemos. Algo interessante, é que depois que a história termina temos uma série de questionamentos no final do livro que sintetizam muitas das questões que surgem durante a leitura, e até mesmo reforçam algumas coisas que deixamos passar despercebido.

“Então, acabei me distraindo com um dos livros da Segunda Guerra Mundial de Kevin: um livro de memórias de sobreviventes de campos de concentração. Histórias de agrassão, inanição, imundície, doença, tortura, todo tipo de humilhação. Como se os alemães tivessem tentado fazer, em apenas alguns anos, o que os americanos praticaram por quase dois séculos”.

Não é à toa que Kindred é considerado um clássico da ficção científica, porque é uma história atemporal. Eu me surpreendia sempre que lembrava que este é um romance escrito e que se passa na Califórnia, na década de 1970. E é triste que na atualidade ainda nos deparamos com situações semelhantes à dos anos 70 e do século XIX.

Kindred pode ser também um livro de ficção histórica, porque retrata com muita veracidade um período sombrio da história. Olhando através de um buraco na parede que a ficção nos proporciona, podemos enxergar o passado e ter um retrato sobre o racismo histórico, preconceito, machismo e violência. Um período que deveríamos ter deixado para atrás há muito tempo, mas que infelizmente ainda vivenciamos grande sequelas desse passado. Este é o tipo de livro que entra para a lista de histórias essenciais, que todo mundo deveria ler em algum momento da vida.


Kindred: Laços de SangueTítulo: Kindred – Laços de Sangue
Autor: Octavia E. Butler
Tradução: Carolina Caires Coelho
Editora: Morro Branco
Ano: 2017
Páginas: 432
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SINOPSE: Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.

 

Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo.
Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.

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