Resenha | Encarcerados – John Scalzi

John Scalzi tem um estilo de narrativa estimulante e viciante. Mesmo quando você está diante de inúmeras informações que dão um nó na sua cabeça, não consegue diminuir o ritmo de leitura; você quer ler mais e mais. Encarcerados segue um estilo completamente diferente da série Guerra do Velho, mas o autor foi capaz de apresentar um mundo tão impressionante quanto.

Devido a uma pandemia global que matou milhares de pessoas no mundo, a humanidade é forçada a se reestruturar para lidar com as suas consequências, investindo valores exorbitantes em saúde, pesquisa e tecnologia. Depois de atingir a primeira dama dos Estados Unidos, Margaret Haden, sua mais notável vítima, o vírus ficou mundialmente conhecido como Síndrome de Haden. Um dos estágios mais cruéis da doença, leva o indivíduo à paralisia completa do sistema nervoso somático, sem chances de reversão. Sua mentalidade e consciência continuam em perfeito estado, mas você é incapaz de se mover; perde toda a capacidade física, inclusive a de se comunicar. Fica encarcerado dentro de si mesmo.

Uma das saídas para reverter essa situação foi implantar uma rede neural no cérebro dos que sofrem de encarceramento, permitindo que eles retomem as suas vidas através da transferência de sua consciência para androides, carinhosamente conhecidos como C3. Este é o plano de fundo para a história de Scalzi, que mostra através de Chris Shane, um Haden, como é viver dentro dessa perspectiva – a de também milhares de outras pessoas. Chris é o novo agente do FBI, e junto com a sua parceira Vann, precisa desvendar um crime estranho e misterioso logo no seu primeiro dia de trabalho.

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Como fujo um pouco de sinopses, entrei de cabeça dentro dessa história sem saber absolutamente nada sobre ela. Acabei me surpreendendo bastante com o mundo futurístico e a forma que a trama foi se desenvolvendo. Me senti lendo à um romance policial, com ótimos elementos de ficção científica, à lá Isaac Asimov.

Como vocês devem ter notado, Scalzi nos oferece uma construção de mundo distópica intrigante e verossímil. Sem dúvidas, foi o ponto alto da trama.  É plausível as várias possibilidades que a humanidade encontrou para se esquivar dos problemas, transformando o terrível acontecimento em algo positivo. Quando comecei a leitura, imaginei que o mundo sucumbiria por causa da doença, mas ele deu a volta por cima e conseguiu evoluir. Por conta desse período de transformação e readequação da humanidade, também nos deparamos com muitos jogos de interesses políticos.

Vann e Chris formam uma dupla sinérgica, divertida e promissora. Mesmo bastante diferente um do outro, o humor dos dois combina, e quando começam a trabalhar juntos, entram numa sintonia muito boa, digna de um bom par de agentes do FBI. Como sempre, os diálogos são ótimos, carregados de sarcasmo e um humor delicioso que já se mostrou a marca registrada do autor. Mesmo quando você está diante de uma situação que tem tudo para ser mais tensa, ele consegue encaixar motivos para te fazer rir e se descontrair – como por exemplo, Chris Shane é um desastre e ao mesmo tempo um perigo com uma panela.

Ao terminar a leitura, senti que faltou um pouco mais de tensão e emoção na história, principalmente na reta final. Gosto de temer pelos personagens principais e por aqueles que estão à sua volta – e sei que o autor sabe fazer isso muito bem.

Um fator interessante e que pode agradar aos fãs de Jogador Nº 1, é que existe um mundo não físico – não uma realidade virtual, porque para um Haden o mundo não físico é tão real quanto o físico – conhecido como Ágora, o local de maior ponto de encontro entre Hadens, que me fez lembrar muito do Oasis.

“Me disseram que meu espaço liminar é como a escuridão de um túmulo. Mas acho que é como a escuridão da outra ponta da vida. A escuridão de tudo o que está à frente, não de tudo  que ficou para trás”.

Como sempre costumo dizer, começar a ler ficção científica pelos livros de John Scalzi é uma ótima decisão. Ele é capaz de construir um mundo bem arquitetado, carregados de informações complexas, mas que são conduzidos por uma narrativa fluida e trama divertida que possibilitam você de acompanhar a história sem problemas. Muito pelo contrário, quando acaba, você quer mais. Ainda não entendo como é que os livros desse homem ainda não foram adaptados. Mais Scalzi, por favor!


EncarceradosTítulo: Encarcerados
Autor: John Scalzi
Tradução: Petê Rissatti
Editora: Aleph
Ano: 2018
Páginas: 326
Skoob | Goodreads | Amazon

SINOPSE: Um vírus altamente contagioso, indivíduos encarcerados em suas mentes ativas e saudáveis, robôs inseridos na sociedade, um estranho assassinato em um quarto de hotel que vai revelar grandes conspirações políticas.
ENCARCERADOS, escrito por John Scalzi, é excitante, divertido, tem bons personagens, traz um universo cyberpunk e distópico bem construído e verossímil, que nos transporta para um futuro assustadoramente próximo. (E a gente achou que o Scalzi não conseguiria nos impressionar tanto depois de Guerra do Velho…).

14 comentários

  • Jessica Rabelo

    Oii Gisele.
    Eu gosto bastante de livros de ficção científica cheios de significância. Achei bem interessante a proposta do autor, mas principalmente a verossimidade do enredo. Soa bem forte a maneira como ela se dá. Não conhecia esse livro, mas já o amei.
    Beijos.

  • Viviane Almeida

    Oi Gisele, tudo bem?
    Eu gosto de livros e filmes sobre ficção cientifica, eles nos dão uma visão diferente sobre o mundo, nos mostrando o que poderia acontecer no futuro. Não conheço esse livro, mas, já ele em algumas livrarias do shopping, sinceramente achei a capa muito feia para uma história que parece ser tão interessante.

    Beijos e abraços!
    http://vickyalmeida.blogspot.com.br/

    • Gisele Lopes

      Oi Vicky! Eu gosto dessa capa porque sou fã do ilustrador! Hahaha. Mas depois que li o livro achei que a capa gringa faz muito mais sentido. Beijos.

  • Raquel Naya

    Oi Gisele, tudo bem?
    Nossa eu nem sabia que era o mesmo autor de Guerra do Velho! Eu ainda não ando lendo muita ficção científica, mas tenho vontade de dar uma chance a alguns títulos, quem sabe me interessem. E esse, assim como Guerra do velho parece ser um ótimo livro para se começar e engatar de vez nesse mundo sci-fi. Gostei muito da resenha

    Beijos

    • Gisele Lopes

      Oi Raquel! Vai fundo em John Scalzi. Ele conduz as suas histórias de forma leve e divertida, e nem mesmo as partes com muita informação ficam massantes. Espero que você dê uma chance e conheça o autor. Beijos.

  • Clube do Farol

    Eu não conhecia esse livro, mas já quero ler quando puder, gosto de ficção científica, mas não é todo livro desse gênero que me atrai, mas saber que ele tem um certo humor e sarcasmo (digam o que quiserem, mas os personagens sarcásticos são os melhores) me fez querer ler/conhecer todos os livros do autor.
    Parabéns pela resenha!
    Bjo
    ~ Danii

  • Viviane Ferreira Oliveira

    Oi Gi! Mais uma indicação muito boa né? Vc só aumenta minha lista de desejados, vou parar de visitar esse blog, meu salário não aguenta! hahaha

    Super curto ficções e esse tema ficou bem legal! Ao invés de um vírus detonar tudo como em resident evil, vemos a humanidade dar a volta por cima, muito interessante!!!

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

    • Gisele Lopes

      Não faça isso! Fico muito feliz em contribuir com a sua lista hahaha. Acho que isso foi o que mais me surpreendeu dentro dessa história, genial.

  • Eloise

    Oi Gisele,
    Adorei essa parte ” romance policial, com ótimos elementos de ficção científica”, você já me convenceu a ler por aí. Também não curto ler sinopses, me aventuro no livro e vou ver no que dá hahaha Adorei sua resenha e seus pontos de vista, a trama em si, suas personagens e a questão da síndrome, tudo me encheu os olhos. Outro ponto que gostei de saber é que os diálogos são bem construídos e repletos de humor.Fiquei super curiosa e já quero me aventurar nessas páginas.<3

    Adorei!!!
    Bjokas da Elo!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com.br/

    • Gisele Lopes

      Oi Elo! Serião, tenho certeza que você vai gostar desse livro então, já que aprecia essas características. O livro tem muito diálogo e eles são bem divertidos, é um livro para se ler rapidinho. Beijos

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