Precisamos falar sobre Ninguém Nasce Herói

Num Brasil futurístico, o país vive uma ditadura fundamentalista governada por um fanático religioso denominado como O Escolhido, que rege com o discurso de elevar os valores da família tradicional. A liderança do Escolhido incitou o ódio de grupos extremistas, que procuram fazer justiça com as próprias mãos àqueles que ameaçam a conduta imposta pelo presidente. Com isso, quem sofre são as classes de minorias sociais, que não perdem só a liberdade de expressão, mas também o direito de viver.

Nessa história, acompanhamos o cotidiano de um grupo de amigos que, aos trancos e barrancos, se refugiam uns nos outros para tomar fôlego diante de uma realidade caótica, encontrando forças para resistir, lutar, e por que não, se divertir. Afinal, “viver bem é a melhor vingança”.

Chuvisco, a quem somos agraciados pelo seu ponto de vista, é um tradutor que vive na cidade de São Paulo, e ao seu modo, junto com alguns outros amigos, tenta fazer a diferença através de pequenos atos de manifestação e ousadia, distribuindo livros que foram banidos pelo governo em espaço público, para incentivar a leitura, e talvez, despertar em outras pessoas o sentimento de fazer a diferença também. Esse ato na hora me lembrou da famosa frase de Castro Alves, “Bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar”.

Uma das coisas mais interessantes da história foi o desenvolvimento dos personagens. A diversidade dos protagonistas e a forma como ela foi abordada foi plausível. Nada forçado, mas sim natural, como as coisas realmente são. O meu favorito foi o Pedro, porque me identifiquei bastante com ele em diversos momentos.

Por outro lado, não poderíamos ter acompanhado melhor a história do que através do ponto de vista de Chuvisco, que é um personagem extremamente interessante. Ele tem um transtorno que é denominado como catarse criativa, que diante de uma situação difícil, cria uma realidade paralela, uma dimensão as vezes pior e mais cruel, fazendo com que a realidade não pareça tão ruim assim.

Não é uma característica exclusivamente negativa. Quando necessário, é através das catarses que Chuvisco se fortalece, veste sua armadura e encontra coragem para enfrentar os seus inimigos.

Os surtos de Chuviscos absolutamente constantes na história dão uma característica diferente pra ela, você vê os acontecimentos aos olhos de Chuviscos, cheios de imaginação – hora assustadoras, com gigantes de aço que chegam para te esmagar, hora lindas e delicadas, com borboletas coloridas e cintilantes. Porém, ele precisa ser forte para lutar contra os surtos e não perder a noção do que é ou não real. Os momentos de maior tensão que Chuvisco mescla a realidade com as catarses são espetaculares, um jeito extremamente peculiar de se ver e interpretar as coisas. Particularmente, foram minhas partes favoritas do livro.

Voltando a falar dos outros personagens, eu me apeguei tanto a eles que me vi desejando fazer parte daquele grupinho de amigos, abraça-los, incentivá-los com mensagens de esperança, lutar ao lado deles e prometer que tudo ficaria bem.

A história nos mostra o cotidiano difícil de pessoas comuns como nós, enfrentam. Sempre lutando, acrescentando pequenas vitórias, adquirindo ainda menos de esperança, mas o suficiente para tomar fôlego e continuar. São essas lutas e vitórias que fazem deles heróis do dia a dia.

“A verdade é que ninguém nasce herói. Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando”.

Em alguns momentos, o livro foi assustador. É incrível a relação de alguns acontecimentos terríveis com a realidade em que a gente vive. A princípio, parece que estamos vivenciando uma grande regressão, mas os temas e as dificuldade são absolutamente atuais. E infelizmente, no decorrer da história, você nota que ela não se trata de um futuro tão distópico assim.

Esta é a primeira história que leio do Eric Novello. Eu me empolguei bastante com a premissa, obviamente por causa da situação que vivemos no nosso país. Mas eu não imaginava nada do que estava por vir e a avalanche de sentimentos que ela me trouxe me pegou totalmente desprevenida. É uma história com uma carga emocional gigante. Fiquei com a garganta apertada em diversos momentos, olhos encharcados, e no final, depois de me segurar muito, não deu outra, me acabei em lágrimas.

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Ninguém nasce herói apresenta nuances sobre amizade, empatia e esperança. A minha opinião é que todo mundo deveria ler esse livro. Ele te toca lá no fundo, te passa mensagens sutis e também brutas, mas que são fundamentais.

Me encantei com a escrita do autor. Quase acabei com um bloquinho de marcador fazendo um montão de marcações. Quando cheguei até a última página, depois dos agradecimentos (viu, Eric?), eu queria mais! Até então conhecia o trabalho do Eric Novello apenas através de suas traduções, mas agora, necessito conhecer mais histórias dele.

Um adendo muito importante sobre a capa desse livro. E L A É S E N S A C I O N A L! Além de ser linda, retrata a ideia do livro de forma brilhante. Amei e amei!


Ninguém Nasce HeróiTítulo: Ninguém Nasce Herói
Autor: 
Eric Novello
Ano: 2017
Editora: Seguinte
Páginas: 384

SINOPSE: Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

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